O local escolhido pelo
presidente da agremiação, Wilson Moisés, que segundo
ele não poderia ser mais adequado. Theatro Municipal, no
Salão Assirius. A entrega da sinopse começou as 20:00 hs
e em seguida breve palestra do carnavalesco Alex de
Souza sobre o enredo.
Pela primeira vez em sua história, a
Unidos de Vila Isabel está abrindo a disputa de sambas para
além de sua tradicional ala de compositores. Ou seja, qualquer
compositor, mesmo que não pertença à ala de compositores da
agremiação, poderá retirar a sinopse e inscrever um samba na
disputa. Segundo explica o diretor de carnaval da Vila Isabel,
Ricardo Fernandes, a regra a ser observada é que as parcerias
devem se restringir a quatro compositores no máximo.
TÍTULO DO ENREDO: NESTE PALCO DA FOLIA, É MINHA VILA
QUE ANUNCIA: “THEATRO MUNICIPAL - A CENTENÁRIA MARAVILHA”
Muito Prazer. Meu nome é Paulo Barreto. Mas fiquei
conhecido mesmo pelo meu pseudônimo: João do Rio, o mais
carioca dos cariocas. Fui escritor e cronista, com passagem
por importantes jornais como O País e a Gazeta de
Notícias. Fui romancista, e publiquei diversos livros,
sendo por isso convidado para assumir uma cadeira na Academia
Brasileira de Letras. Fui autor de diversas peças de teatro e
presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Mas, a
minha grande paixão era perambular pelas ruas da cidade, como
um flâneur, para poder compreender a sua verdadeira
“alma encantadora”.
Vivi num momento muito especial dessa metrópole
nacional, quando ela ainda era a capital federal. Governava o
país o Sr. Rodrigues Alves e era desejo seu transformar a
cidade na capital do progresso. Para isso, escolheu
como prefeito do Distrito Federal, o Sr. Pereira Passos, a
quem lhe deu a missão de transformar a cidade do Rio de
Janeiro num cenário que mostrasse aos olhos do país inteiro e
aos olhos do mundo que a República trouxera, de fato, tempos
novos. O Rio deveria ser transformado numa espécie de
cartão-postal da era moderna que a República pretendia trazer
para o país.
Aquele foi um momento decisivo. A cidade mantinha
aspectos ainda do período colonial, com ruas estreitas,
iluminações precárias e mal cheirosas, e aquele casario que
formava “um agrupamento de telhados mais ou menos pombalinos,
feio, sujo e torto”. Visando então alterar esse cenário, o
presidente e o prefeito deram início ao conjunto de obras que
transformariam o Rio de Janeiro, cidade colonial, numa cidade
moderna. O velho centro sofreu uma série de modificações que
se assentaram na remodelação e ampliação do porto,
higienização, saneamento, assim como na abertura de avenidas,
praças e jardins.
E teve início o “bota-abaixo” ordenado pelo prefeito
demolidor, um “Haussmann Tropical”. A capital da República
virou uma loucura! A cidade parecia um grande canteiro de
obras. Tudo mudava. As velhas casas da capital vinham abaixo.
No lugar delas, um imenso boulevard parisiense rasgou o
centro da cidade, a Avenida Central, arrasando quarteirões e
mais quarteirões, derrubando os cortiços, destruindo os
quiosques e desalojando a moradia e a diversão da população
pobre da cidade. Muitos diziam que o barulho das demolições
era um hino triunfal ao progresso.
O Rio Civiliza-se!!!! A construção da Avenida Central
fez surgir uma nova paisagem. Por ela andavam homens trajando
paletós de casimira clara e usando chapéu de palha,
acompanhados de senhoras finamente vestidas com toaletes de
nítida inspiração parisiense, desfrutavam os tempos eufóricos
da Belle Époque. A “boa sociedade” carioca, depois de
um agradável passeio pela nova avenida, dirigia-se para a
Cavet ou para a Colombo para conversarem em francês, tomarem
chá, ou se deleitarem com finos vinhos e iguarias da
cuisine française.
Fachadas e prédios eram erguidos como símbolo do
cosmopolitismo e da modernidade. E, foi então na febre das
edificações, que o prefeito Pereira Passos pensou na
construção de um grande teatro, sonho do comediógrafo Arthur
Azevedo, que tanto clamou pela criação de uma companhia
teatral nacional, subvencionada pela Prefeitura Municipal, nos
moldes da Comédie-Française.
Nada mais belo do que aquele que foi a inspiração
máxima da arquitetura francesa em nossa cidade: o prédio do
Theatro Municipal, uma réplica menor do teatro Ópera de
Paris, em estilo eclético Um verdadeiro símbolo da
modernidade em pleno centro do Rio de Janeiro. O sonho de
transformar a capital da República numa “Europa possível”
concretizava-se.
Aberta a concorrência pública para a apresentação dos
projetos para a construção do edifício, dois empataram. Eram
os de codinome “ISADORA” e “AQUILLA”. Este último pseudônimo
ocultava a figura de Francisco de Oliveira Passos, filho do
prefeito, cujo projeto, após sofrer algumas modificações foi o
escolhido. Mas, a “Revolta da Vacina”, que transformou
as ruas do centro da cidade num verdadeiro caldeirão social,
não permitiu que as obras se iniciassem imediatamente.
Inaugurado a 14 de julho de 1909, data das
comemorações do dia nacional francês, a nova casa de
espetáculos coroava o Rio de Janeiro numa vitrine da cidade
moderna. Aquela noite foi inesquecível para todos os
cariocas!!!
A estréia foi aberta com o hino nacional brasileiro
cantado de pé por todo o público presente. A seguir, ouvimos
de Olavo Bilac, um dos maiores poetas brasileiros, o discurso
inaugural. Logo imediatamente, assistimos a apresentação de
duas óperas nacionais: Moema e Insônia. Além da
comédia em um ato, Bonança.
O sucesso da apresentação das óperas no dia da
inauguração do teatro foi tão grande, que, no ano de 1910,
resolveu-se encenar Aída, de Verdi. Um espetáculo
memorável, com aqueles cenários e figurinos deslumbrantes do
Egito Antigo!!! Essa foi a primeira das grandes óperas
encenadas no Municipal, a primeira de tantas outras que fariam
história naquele palco nacional.
Não podemos nos esquecer dos grandes concertos dessa
casa. No início, as companhias e orquestras estrangeiras,
especialmente as italianas e francesas, eram as que se
apresentavam. Com a criação da Orquestra Sinfônica Municipal
do Rio de Janeiro, em 1931, passamos a ter a apresentação de
um acorde genuinamente nacional, com grandes apresentações,
desde um Villa-Lobos a um Francisco Mignone e pela voz da “la
piccola brasiliana” Bidú Sayão.
Importantes espetáculos de ballet foram encenados
naquela casa. A companhia Ballets Russes, com o espetacular
Nijinsky, foi uma das primeiras a se apresentar. A pioneira
para a criação de uma escola de dança do Brasil sediada no
próprio Theatro Municipal foi Maria Olenewa. Desse marco
fundador em diante, um repertório de grandes bailarinos tem se
destacado na dança brasileira. Inovadora foi a atuação de
Mercedes Batista, a primeira bailarina negra do Municipal, que
uniu a formação erudita do ballet clássico com a cultura
negra, criando o ballet afro. Os mais célebres espetáculos
de ballet foram apresentados de forma memorável naquele
palco.
As mais relevantes companhias nacionais de teatro, com
as nossas grandes estrelas, subiram ao palco do Municipal,
aprendendo e ensinando a representar. Lá estreou a peça que
revolucionou nosso teatro, Vestido de Noiva, do sempre
lembrado Nelson Rodrigues, dirigida por Ziembinski com
cenários do primeiro cenógrafo moderno brasileiro, Santa Rosa.
Revolucionária também foi a montagem de Orfeu da Conceição,
de Vinícius de Moraes e músicas de Tom Jobim (formando uma
dupla que fez nascer aí o embrião da bossa nova). A peça foi
interpretada somente por atores negros, cujo protagonista foi
Haroldo Costa; os cenários eram de Oscar Niemeyer.
Ah, o carnaval!!! Eu falei o carnaval!!! O Municipal e
o carnaval sempre estiveram bem juntinhos. Os primeiros seis
grandes bailes de máscaras foram realizados no Salão
Assirius, restaurante que já foi museu do teatro e até
cabaré onde se apresentou Pixinguinha, do grupo os Oito
Batutas, o local mais excitante do Municipal, aquela obra
magnífica inspirada na arte persa!!! Mas, o primeiro baile
oficial só aconteceu em 1932. Deslumbrantes foram os
concursos de fantasias que revelaram grandes nomes de
destaques para o carnaval carioca. Fatos marcantes e
personagens lendárias da cidade do Rio de Janeiro ficaram
registrados na história desses grandes eventos carnavalescos.
A tríade de carnavalescos “Fernando Pamplona, Arlindo
Rodrigues e Joãozinho Trinta” foi responsável pelas mais belas
decorações de carnaval do teatro, assim como por cenários e
figurinos de óperas e ballets. Eles também foram os
“revolucionários” da estética do desfile das Escolas de Samba,
emprestando a sua formação erudita para engrandecer a maior
festa popular do mundo. Sua arte ninguém jamais se
esquecerá!!!
Patrimônio carioca, onde o erudito e o popular se
cruzam, o Theatro Municipal está completando cem anos. Essa
maravilha do Rio é um produto máximo da nossa cultura. Eu,
João do Rio, que vivi o início de tudo, despeço-me de todos
vocês, acreditando ter cumprido a missão de apresentar o
centenário dessa casa de espetáculos genuinamente carioca.
Vamos comemorar e por deveras de pé aplaudir. Com a Unidos de
Vila Isabel que presta essa homenagem, um forte brado, numa só
voz exaltar: BRAVO! BRAVO! BRAVO!
Autores do enredo: Alex de Souza (Carnavalesco) & Alex
Varela (historiador)
GLOSSÁRIO:
Flâneur- Pessoa que passeia
ociosamente, no caso, perambula registrando tudo o que vê.
Haussmann – Barão
Georges-Eugène Haussmann (1809-1891), prefeito de Paris,
responsável pela reforma urbana da cidade entre 1853 a 1870,
tornando-se referência mundial.
Cuisine française – Expressão
que faz referência à culinária francesa.
Comédie-Française, ou Théâtre-Français - Ùnico teatro estatal
francês, e um dos poucos que têm uma companhia permanente de
atores.
“Revolta da Vacina”- Movimento
popular, ocorrido na cidade do Rio de Janeiro em novembro de
1904, contra a lei de vacinação obrigatória para acabar com a
varíola proposta pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz
(1872-1917), então Diretor Geral de Saúde Pública da Capital
Federal. O movimento conseguiu que o presidente Rodrigues
Alves revogasse a lei que tornava a vacina obrigatória e
autorizou que os institutos de vacinção imunizassem apenas os
que desejassem.
Nijinsky – Vaslav Nijinsky
(1890-1950) foi um dos maiores gênios da dança de todos os
tempos.